Três de Maio de 1808 em Madri


"Três de Maio de 1808 em Madri" (ou "Os fuzilamentos da Montanha do Príncipe Pío") é uma pintura a óleo sobre tela produzida pelo artista espanhol Francisco de Goya em 1814, atualmente conservada no Museu do Prado. A obra se refere ao fuzilamento em massa dos populares que se rebelaram contra a ocupação de Madri pelas tropas de Napoleão.

O Levantamento de Dois de Maio foi um dos episódios mais sangrentos da Guerra Peninsular — um dos desdobramentos das chamadas Guerras Napoleônicas. Derrotado em sua tentativa de invadir a Inglaterra, o imperador francês Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, proibindo os países europeus de recepcionarem as embarcações inglesas. Aliado tradicional da Inglaterra, o reino de Portugal não aderiu ao embargo, levando Napoleão a ordenar a invasão do país. Como a Marinha Real Britânica tinha a supremacia militar nos mares, o ataque das tropas francesas a Portugal teria de ocorrer por terra, cruzando o território da Espanha.

Em outubro de 1807, após a assinatura do Tratado de Fontainebleau, Napoleão ordenou ao general Joaquim Murat e ao exército francês que ocupassem Madri, capital da Espanha. Para assegurar o controle do reino, Napoleão instruiu Murat a conduzir os monarcas espanhóis — o rei Carlos IV e seu herdeiro, Fernando VII — a uma reunião consigo em Bayonne, no sudoeste da França. Durante o encontro, os monarcas espanhóis foram forçados por Napoleão a abdicar do trono em favor de seu irmão, José Bonaparte, no episódio que ficou conhecido como "Abdicações de Bayonne".

Em Madri, o poder passou a ser exercido por Murat, que reduziu a junta de governo responsável por administrar a cidade ao papel de títere. Autoritário e truculento, Murat não tardou em suscitar profundo descontentamento entre os madrilenhos, igualmente incomodados com a presença das tropas francesas na cidade. Em 27 de abril de 1808, Murat ordenou que os filhos de Carlos IV que ainda estavam em Madri — a princesa Maria Luísa e o infante Francisco de Paula — fossem igualmente levados para Bayonne.

Os madrilenhos consideraram que a ordem de Murat era um ataque inaceitável à autonomia do país. Assim, em 2 de maio de 1808, uma grande multidão cercou o Palácio Real de Madri para protestar contra Murat e impedir a saída do comboio transportando os nobres. Murat ordenou aos Guardas Imperiais e à artilharia francesa que abrissem fogo contra a multidão para dispersar os manifestantes. A repressão brutal ao protesto deixou vários mortos e feridos, enfurecendo ainda mais a população. Decididos a expulsar os franceses e a vingar os seus mortos, o povo espanhol deu início a um levante popular.

A sublevação foi espontânea e generalizada entre as classes populares. Formaram-se milícias de bairro comandadas por caudilhos. Os civis tentaram tomar as armas dos arsenais, mas as tropas francesas já haviam se apoderado dos estoques. Passaram assim a lutar com o que tinham em mãos — navalhas, facas, marretas, pedras e paus. Os rebeldes correram para bloquear as rotas de acesso à cidade para evitar a chegada de novas tropas francesas. Conseguiram tomar a Puerta de Toledo e a Puerta del Sol, mas 30.000 soldados franceses já haviam adentrado na cidade. Seguiu-se um dia inteiro de batalhas campais que logo evoluíram para massacres brutais, dada a superioridade bélica dos lanceiros napoleônicos e dos mamelucos que os apoiavam. Esfaqueamentos, degolações e atos de selvageria dominaram as ruas da cidade. Em poucas horas, as tropas francesas conseguiram subjugar os rebeldes e debelar todos os focos de resistência.

Enquanto o povo lutava para expulsar os invasores franceses, o exército da Espanha nada fez. Permaneceu aquartelado e passivo, obedecendo às ordens de Murat. Somente alguns artilheiros do Palácio de Monteleón desobedeceram seus superiores e se uniram à insurreição popular. Os nobres e aristocratas espanhóis também se negaram a apoiar o levante dos patriotas, preferindo a submissão e colaboração com os interventores estrangeiros. Além de negar ajuda aos rebeldes, a nobreza de Madri destinou recursos materiais para auxiliar as tropas francesas no ataque contra o seu próprio povo.

Sufocado o levante, Murat ordenou punição rigorosa para todos os rebeldes, desejando inculcar medo na população e afirmar seu domínio absoluto sobre a Espanha. Assinou no mesmo dia um decreto que determinava que todos os manifestantes que foram presos portando armas deveriam ser fuzilados. Também fez o conselho local aprovar uma rígida legislação que proibia reuniões populares em sítios públicos e restringia as liberdades civis. Em 3 de maio de 1808, começaram os fuzilamentos em massa dos rebeldes, levados a cabo no Salão do Prado, nos Campos de La Moncloa e na Montanha do Príncipe Pío. Ao todo, cerca de mil espanhóis foram mortos. Soldados franceses e militares espanhóis integraram os pelotões de fuzilamento.

Goya pintou a obra em 1814, um ano após a saída das tropas napoleônicas da Espanha e da restauração da dinastia dos Bourbon. A obra foi concebida como parte de uma série de quadros dedicados ao registro do Levantamento de 2 de Maio e suas consequências. A composição divide-se em dois grupos contrastantes, evidenciando a desigualdade de forças no conflito. À direita, oito soldados de infantaria representados com fuzil, uniforme e o chapéu, prestes a executar os rebeldes. À esquerda, há corpos inertes prostrados no chão e um grupo de populares que aguarda o fuzilamento com expressões faciais de terror.

No grupo dos populares, uma figura sobressai — um revolucionário de braços abertos, trajando uma camisa branca. Sua posição evoca a de Cristo crucificado, fazendo alusão à figura do mártir. Suas mãos também estão feridas, representando os estigmas do messias cristão. No segundo plano, destaca-se uma igreja. É uma referência ao papel desempenhado pela instituição durante o levante. A igreja católica da Espanha se opôs à ocupação de Napoleão, em virtude, sobretudo, da ordem dada pelo imperador francês para que os conventos espanhóis fossem fechados.

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